A pedido de muitas famílias (a minha), reedita-se aqui uma história antiga do também antigo blog Jhurnalisto.
Pai Natal - Uma história de todos os dias
Capítulo I
Era dia, mas Nicolau não conseguia ver nada. Primeiro pensou que tivesse alguma coisa em cima da cabeça, mas quando passou a mão pelos finos cabelos brancos, sentiu um líquido espesso a passar-lhe por entre os dedos. Deitado de barriga para o chão, abanou lentamente a cabeça e os olhos começaram a responder… A visão ainda estava turva, mas era suficiente para identificar a cor do líquido nas mãos: vermelho… Sangue?! De imediato, Nicolau tentou ordenar aos músculos e aos ossos para que se organizassem – Vá, homem, levanta-te! Sessenta e oito anos e nem sequer consegues pôr-te de pé? – pensou.
Uma dor lancinante começou a percorrer-lhe a cabeça… Deitou as duas mãos à nuca e sentiu um corte, não muito grande, mas latejante e com um ardor que lhe fazia lembrar o tiro na perna que levou numa das distantes guerras que travou em nome do país (a cicatriz ainda lá estava como “medalha”). Cerrou os punhos, encheu os pulmões de ar e conseguiu levantar o joelho esquerdo, assentando o pé no chão. Deixou a descoberto fora do sobretudo um dos ténis vermelhos All Star, já roto ao pé da biqueira e gasto dos muitos anos de uso. O segundo joelho teimava em não responder… Nico, como era conhecido pelos companheiros de rua, olhou em volta e não reconheceu o cenário: uma viela estreita semi-iluminada pelos primeiros raios de Sol do dia e ladeada por prédios altos e cinzentos. As cores mais vivas saíam dos contentores de lixo, encostados a uma das paredes, vestidos num tradicional verde escuro.
Começou então a lembrar-se da noite anterior… uma véspera de Natal como tantas outras, passada na rua. Como companhia, apenas um ou outro cão vadio ou um ocasional polícia que lhe dizia para se pôr a andar dos locais públicos. Como todas as noites, passou pelo número 51 da Rua da Boa Esperança, onde morou em tempos. Como sempre, foi até à janela da cozinha, espreitou lá para dentro e viu cenário habitual: uma mãe, duas filhas e a avó a jantar em silêncio, mas, hoje, cabisbaixas. A casa estava repleta de bolas e fitas vermelhas e douradas. A mesa com uma toalha bordada, povoada por um sem-fim de delícias culinárias fumegantes. Era uma família… em tempos… a dele. Secou os olhos e disse baixinho “até manhã, meus amores”, enquanto deixava para trás o quadro onde já não pertencia desde o pior dia da sua vida, há precisamente 8 anos.
Saiu do bairro pela estrada principal ainda com uma pungente memória de outra vida, quando foi obrigado a atirar-se para o chão por causa de um carro, desses desportivos vermelhos, barulhentos e caros, como tivera em tempos. Do interior da viatura ouviu risos de juventude. O caro parou poucos metros à frente dele e de lá saíram dois jovens, pelo aspecto, com pouco menos de 20 anos, ambos de smoking já desapertado e amarrotado, com os olhos vidrados da bebida. - Ó velho! Vê lá mas é se sais da estrada! Vagabundo de merda! É por causa de vocês que este país não anda! – Gritou um deles. - Eu estava no passeio, jovem. Se calhar é você que tem de ter mais cuidado a conduzir… e a beber. – Respondeu Nico, já a tentar levantar-se. - Olha que o sacana é respondão! – Berrou o segundo jovem, já a dirigir-se para Nico. Notando que trazia uma garrafa na mão, Nico apressou-se a tentar desfazer a situação. - Jovens, vão lá para casa e deixem-me em paz. Já sou velho, não posso correr nem lutar convosco. Peço desculpa se estava na estrada… nem reparei. Levantou-se, virou as costas aos teenagers e seguiu o caminho que traçava todos os dias.
Depois… ficou tudo escuro.
Capítulo II
Nico voltou a sacudir a cabeça tentando expulsar a dor, mas de pouco serviu. Foi ao bolso esquerdo do sobretudo já descosido nas pontas e tirou de lá um lenço branco, com as iniciais NN. Nicolau das Neves dobrou o lenço em quatro e levou-o à nuca, pressionando-o contra o corte.
Saiu do beco e deparou-se com a avenida principal da cidade. Os carros amontoavam-se junto aos semáforos, condutores impacientes, ávidos de um brilho verde, como corredores à espera do tiro de partida. As pessoas andavam, frenéticas, de um lado para outro, como se fossem morrer ao parar. O som esporádico das sirenes da polícia e das ambulâncias cortavam o ar, desviando momentaneamente a atenção dos menos apressados. As crianças choravam e gritavam porque queriam ir ao colo da mãe, ou porque queriam um balão, daqueles que “o senhor vestido de Pai Natal” vendia. No meio de tudo aquilo, ninguém parava sequer para ver as decorações de Natal das ruas.
Os cordões de azevinho em plástico verde-claro serpenteavam os postes de electricidade, as armações de anjos feitos de mangueiras de luz ocupavam os céus das estradas, mas tudo passava despercebido àquelas pessoas… De repente, Nicolau foi abalroado atrás dos joelhos por uma criança que corria divertida atrás da própria sombra.- Desculpe, senhor – disse o petiz, com não mais de 5 anos de vida nos olhos azuis – mas… o senhor…- Bernardo! - Nico ouviu uma voz de mulher que se aproximava em passo rápido. – Já te disse para não correres pela rua!A senhora, formosa de face, tinha um vestido salmão pelo joelho e um grande chapéu branco, daqueles que parecem uma rotunda com um chafariz.- Bernardo! Não voltas a fugir, senão já não vais ao parque. Agora pede lá desculpa ao senhor.
- Não se preocupe – interveio de imediato Nicolau – ele estava só a brincar.- Ó mãe – disse o pequeno, puxando o vestido à mãe – é ele! Viste, eu disse que ele existia! É o Pai Natal!Os cabelos de Nicolau, brancos como a neve, davam-lhe pelo ombro… a barba farta, também branca da idade transformavam-no num alvo permanente de desenganos para as crianças na altura de Natal. A mãe da criança olhou nos olhos azuis de Nico e assentiu com a cabeça para o filho.
- Realmente é muito parecido, filho, mas não é. Notando que os cabelos brancos estavam manchados de vermelho e vendo o idoso com a mão a pressionar a nuca, não hesitou.
- O senhor está bem? Parece estar a sangrar. Precisa que o levem ao hospital?
- Não é preciso. Agradeço-lhe, mas sobrevivo. Foi só um cortezinho. Coisas de rua…
- O senhor é o Pai Natal? – interrompeu o pequeno Bernardo.
- Bem… gostavas que eu fosse? – Nico tinha uma doçura nos olhos que fariam qualquer um acreditar que ele era mesmo o “homem dos presentes”. Bernardo abanou afirmativamente a cabeça.
- Então sou. – completou Nico – diz-me, Bernardo, portaste-te bem este ano, para poderes receber muitas prendas?
- Eu… bem… eu briguei com a minha irmã ontem, mas ela queria tirar os desenhos que eu gosto da televisão – respondeu o petiz, com ar cabisbaixo.
- Bom, se for só essa a tua maldade… posso garantir que vais ter muitas prendas amanhã de manhã – disse Nico enquanto olhava para os olhos da mãe, como que à procura de confirmação.A senhora tratou de confirmar com um discreto abano de cabeça.
- Vês, filho, afinal tinhas razão. É mesmo o Pai Natal. Mas tens de continuar a portar-te bem, senão…Nico passou a mão pela cabeça do pequeno Bernardo…
- Sê bonzinho e obedece à tua mãe, Bernardo.
- De certeza que não precisa de ajuda, senhor… - insistiu a mulher.
- Nicolau – respondeu – de certeza. Trate bem aqui do miúdo.Nico despediu-se com um aperto de mão a Bernardo e um aceno à mãe e desapareceu no meio da confusão citadina.
Capítulo III
As sirenes das ambulâncias e da polícia faziam-se ouvir do outro lado da cidade. As pessoas corriam sem saber bem porquê em direcção ao prédio da Bolsa de Valores. O negro da noite era interrompido pelo azul dos "pirilampos" da EMIR e dos carros patrulha da PSP. Uma multidão de curiosos teimosamente a tentar ver o que se passava atrás das fitas amarelas da polícia. A seis metros da entrada principal do edifício de 15 andares, um desenho feito a giz no chão contornava uma figura desfigurada, deitada de bruços. O desconcerto dos membros comprovava a violência com que o corpo tinha encontrado o alcatrão da rua, deixando pouco espaço para dúvidas sobre uma "viagem aérea" de um dos andares do topo. Dois homens vestidos com uma espécie de fato-macaco e com luvas de borracha observavam o corpo, tocavam-no e tomavam notas. Um deles virou-se para um agente da polícia.
- Tem identificação do homem?
- Não - respondeu prontamente o agente - era um vagabundo. Deve ter subido ao prédio pela escada de incêndio. Às vezes somos chamados para tirar esses gajos de cima dos edifícios. Este teve azar... devia estar tão bêbado que nem viu o que fazia.
- Não me parece que estivesse bêbado. Não cheira a álcool. - A opinião do médico-legista era o suficiente para o polícia "engolir" a sugestão e voltar para o local onde empurrava os curiosos que queriam passar a barreira.
Com a ajuda de um outro agente, os dois homens de fato-macaco viraram o corpo. Todos eles sentiram um arrepio ao tentar agarrar os braços e as pernas... sem conseguir distinguir os ossos inteiros. Os cabelos brancos e ensanguentados cobriam a face barbuda do homem. Parecia ter uns sessenta e poucos anos. As roupas sujas e rasgadas aqui e ali pareciam confirmar parte da hipótese levantada pelo agente da polícia. Parecia realmente tratar-se de um vagbundo. As pálpebras semi-cerradas deixavam transparecer timidamente uns olhos azuis claros, invulgarmente brilhantes para alguém daquela idade. Na mão esquerda de um punho cerrado saía um lenço branco, já com tons rosa das manchas do que parecia ser sangue. Num dos cantos estavam bordadas as iniciais NN.
- Ele tem aqui um corte na cabeça que não parece ter sido feito agora. O lenço provavelmente estaria a estancar o sangue. A ferida pode muito bem ter um par de dias. Deve ter perdido muito sangue. Com esta idade... o mais certo é ter começado a sentir tonturas. Então se estava lá em cima... Na altura ninguém duvidou do especialista. De repente "disparou" uma criança a chorar... depois outra... depois outra ainda. Em poucos segundos todas as crianças que estavam com as mães, os pais ou os avós começaram a soluçar e a apontar para o chão, onde permanecia imóvel o corpo.
- Ele morreu, mãe! O Pai Natal morreu! - Disse a primeira.
- Caíu do trenó! Oh mãe, e agora?! Não o deixem morrer! - Respondeu outro petiz, desesperado. Os pais começaram a levar os filhos já quase histéricos para fora do local, garantindo-lhes que não era o Pai Natal que ali estava, mas sim um pobre homem que tinha caído do prédio. Nicolau das Neves deixou mulher, uma filha e duas netas de cinco e doze anos. Não falava com nenhuma delas desde o dia em que tinha sido dado como desaparecido, depois de um escândalo que envolvia desvio de fundos na Bolsa de Valores, no dia 24 de Dezembro de 1996. Mais tarde fora provada a sua inocência, mas nunca ninguém o encontrou para lhe contar.
Fim
segunda-feira, 2 de junho de 2008
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